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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A época dos clippers

Em 1834, o monopólio comercial da Ásia, até então detido pela Companhia Britânica das Índias Orientais, chega ao fim. As rotas marítimas para a China, Japão e outro países asiáticos abrem-se a navios de outras companhias comerciais, que a partir de então competirão para levar o chá dos países produtores até aos portos de Inglaterra. Este trânsito vê-se aumentado pela invenção de novos navios, mais leves e rápidos que os anteriores, que fazem os trajectos em menos tempo. Estes navios foram denominados clippers.
O desenho dos clippers foi uma inspiração americana. O primeiro clipper zarpou dos Estados Unidos em 1845 e rapidamente se transformou numa ameaça aos navios britânicos tradicionais. A resposta inglesa não se fez esperar: em 1850, construiu-se o primeiro clipper britânico, o Stornaway, seguido de muitos mais.
Os clippers podiam alcançar uma velocidade de 18 nós. A importância da velocidade de um navio era fundamental para o comércio do chá na época: o primeiro chá a chegar ao porto de Londres era o mais caro, trazendo maiores benefícios para a companhia proprietária.
Para que os navios atingissem maior velocidade, a carga era disposta de uma forma mais estudada.
As porcelanas colocavam-se no fundo, fazendo ao mesmo tempo de lastro; os chás menos caros colocavam-se a seguir; acima da linha de flutuação. colocavam-se os chás mais caros.
Os estivadores asiáticos era peritos na arte de colocar as caixas. Além de maior velocidade, esta forma de armazenar a carga conseguia uma maior estabilidade, um elemento muito importante para lutar contra as monções, as correntes e os recifes.
Na década de 1850, tornaram-se muito populares as corridas de clippers ou corridas de chá, em torno das quais se gerou uma autêntica paixão pelas apostas. Vários navios zarpavam ao mesmo tempo da China, competindo para serem o primeiro a alcançar o porto de Londres. A tripulação que vencia recebia um importante prémio. A mais famosa destas corridas teve lugar em 1866, com a participação de 40 participantes. O vencedor foi o Taeping, que após noventa e nove dias de travessia, chegou ao porto vinte minutos antes do Ariel, o segundo classificado.
A abertura do Canal do Suez - que reduziu a viagem entre a Ásia e a Europa em várias semanas - em 1869 e o uso generalizado dos barcos a vapor provocaram o declínio dos elegantes clippers.

images in http://pt.wikipedia.org/wiki/Clipper_%28veleiro%29
in Ficha nº 10 - "O Reino dos Chás" - Jornal de Notícias, 2005

O chá e o novo mundo



A chegada do chá à América dá-se graças aos colonos europeus. Os holandeses, estabelecidos em Nova Amesterdão - actual Nova Iorque -, foram os primeiros a degustá-lo, no princípio do século XVII. Se no Velho Mundo era um produto caro e exclusivo, no Novo Mundo o preço do transporte fazia com que só alguns privilegiados pudessem apreciá-lo. Os colonos britânicos bebiam o chá com a mesma cerimónia que na metrópole, porém, a pouco e pouco, foram introduzindo algumas novidades como, por exemplo, acrescentar açafrão, açúcar, canela ou casca de pêssego à infusão para intensificar o seu sabor.
Os acessórios necessários para a sua elaboração, nomeadamente chávenas e acessórios de prata e porcelana, também eram muito caros, pelo que se transformaram num símbolo de elevado estatuto social. A primeira loja a ser aberta no Novo Mundo estava situada a Norte de Massachusetts.
Para fazer chá em casa, os nova-iorquinos tinham de comprar a água, porque a água de que dispunham não reunia a qualidade necessária. Além disso, tiveram que instalar bombas de água em redor de Manhattan para assegurar o fornecimento. Com o passar do tempo, o chá foi-se tornando uma bebida imprescindível e a sua popularidade estendeu-se por todas as classes sociais. Os jardins de chá e os cafés que salpicavam as ruas das principais cidades adoptavam nomes ao estilo de Londres.
O chá teve um papel muito importante na independência dos Estados Unidos. Em 1767, o Parlamento britânico aprovou um imposto sobre todo o chá que se vendesse nas colónias americanas e que se destinaria a pagar os gastos do exército e do governo colonial. O novo imposto não agradou aos colonos, pois não havia maneira de o evitar: todo o chá que chegava às colónias britânicas era transportado pela Companhia Britânica das Índias Orientais, controlada pela Coroa. O mal-estar dos colonos traduziu-se numa oposição clara a que os navios descarregassem chá em alguns portos. A chegada de sete carregamentos de chá provocou revoltas em Nova Iorque e Filadélfia. Porém, o passo definitivo foi dado em 16 de Dezembro de 1773, quando Darmouth, um navio carregado de chá, foi abordado em Boston por um grupo de colonos disfarçados de índios americanos. Os colonos atiraram ao mar 340 caixas de chá que o navio transportava, desencadeando uma guerra com os britânicos. Essa guerra teve como resultado a independência das Treze Colónias britânicas no Novo Mundo, que deram origem aos Estados Unidos. Uma vez obtida a independência, o chá passou a ser consumido como acompanhamento às refeições. O próprio George Washington gostava de tomar chá ao pequeno-almoço acompanhado com bolos índios.

images in http://pt.wikipedia.org/wiki/Novo_Mundo
in Ficha nº 9 - "O Reino dos Chás" - Jornal de Notícias, 2005